terça-feira, 5 de agosto de 2008

O relógio e o anel

Quase vi meu pai chorar quando passei no vestibular de medicina e ele não pôde me dar o carro que sempre prometera. A crise financeira chegou ao máximo no início dos setenta; a piaçava, matéria prima das vassouras, era a principal fonte de renda da fazenda, e fora substituída pela fibra sintética, que logo as madames abandonaram, mas não em tempo de quase falir a família. Naquele dia, sem poder me dar o presente, me entregou o unico bem de valor que tinha, imaginem: o relógio de pulso! Um Seiko marrom, vidro arranhado com um "V" e a pulseira cortada de tesoura para caber no braço. Enquanto não pudesse me dar o carro, disse, eu ficaria com o relógio, como uma espécie de garantia. Carregava aquele relógio como se fosse um carro. Não tirava pra nada, nem no carnaval que, naquela época, permitia se ir de relógio pra rua. Dois anos depois, ainda sem carro, domingo, Relógio de S. Pedro, peguei Os Apaches pela frente. Empurra-empurra, atravessei a rua sem por os pés no chão e na calçada senti o vazio no braço: perdi meu relógio! Não roubaram, caiu na muvuca. Arrasado o resto do carnaval. Em fevereiro comecei a namorar uma colega de plantão do Posto em Periperi, que morava na Ladeira do Paiva, Estrada da Rainha, lugar onde jamais havia estado, nem nos tempos de cachaça nas periferias. Março, meu aniversário, a namorada pesquisa um presente; vê a marca branca e, dengosa, sugere o presente. Tive que lhe explicar a recusa e contei o caso do relógio perdido. Não poderia usar outro. Ela tomou um susto, pediu que fizesse a melhor descrição possível do relógio ( era inconfundível ) silenciou, pediu licença, volto logo. Entrou em casa, voltou e me deu o mesmo relógio que meu pai havia me dado e perdi no carnaval. Seu irmão o achou, no dia, hora e local descritos por mim. Dois anos depois, o relógio Seiko foi finalmente trocado por um Chevette amarelo-gema-de-ovo. E se alguem ousar não acreditar, conto o caso do anel de tio Mirabeau. Era uma vez, a vaca Vitória; quem não gostou, conte outra história.

8 comentários:

Edu O. disse...

de boca aberta e coração aliviado!
foi me dando uma tristeza....

aeronauta disse...

Ai, a vida e seus enigmáticos enredos! Fiquei perplexa com a história. E acreditando que a vida é mesmo pura arte, não há nenhuma "coincidência" nas linhas e entrelinhas que ela escreve.

maria guimarães sampaio disse...

Fantástica história! e eu não conhecia? Ou bebia tanto que não gravei? Agora a história do anel de tio Mirabeau. Conta! Conta! que esta também não seio (?)
Seu bloco hoje amanheceu em inglês? o meu sim

anjobaldio disse...

Eu acredito.

Meninha disse...

Tudo que vem de você eu acredito. Bjssss

Judith disse...

Do relógio não sei, nunca o vi, mas o chevette amarelo ovo tinha placa 0053.

miro paternostro disse...

fantástica a estória, e você casou com esta do anel???? mais destino do que isso!!!
quero saber do anel de mirabeau também!
abrs

m

JÚ (LIANA!) disse...

Que liiiinda historia ... e do jeito q eu gosto: COM FINAL FELIZ!!!!! Tio Carmilton faz parte das minhas melhores lembraças ... engraçado como ele, com aquele jeito caladão, e Minha Avó Norma, q não conheci (pessoalmente ... mas tenho a certeza q já vivemos muitas outras vidas juntas!), são pessoas tão presentes e especiais na minha vida!!!!!!
Obrigada Bernardo, por permitir que eu saiba um pouquinho mais dessas historias de vocês!!!!!
Beijos

xeudizer:

anotações livres, leves, soltas