
Meu pai tinha um enfisema pulmonar brabo, resultado de cinco carteiras de cigarro por dia, por mais de 50 anos. Quando reconstruiu a Casa Rôla no Morro de São Paulo, lugar que ele adorava, fretava um barco em Valença que o deixasse na praia, na porta de casa, aliviando sua caminhada sofrida. Sentava na varanda e dali só saía três meses depois, quando acabava o veraneio. Jamais podia ir a qualquer outro lugar no Morro, por motivos óbvios. E se queixava muito, coitado. Tinha até vontade, mas faltava gás. Quando um desavisado lhe perguntava por que não desembarcava na ponte como todo mundo, respondia com humor, que faltava uma coisa no Morro: táxi. Pagaria o que fosse pra circular pela ilha. Como nem se cogitava da presença de veículos por lá, sonhava com um jeguinho manso que lhe deixasse montar e os dois sairiam por lá, certamente com um cigarrinho no canto da boca.
Depois da morte de meu pai, tomei seu lugar. Fumei por 34 anos e herdei um pulmão fraquinho e mesmo depois de 9 anos sem um roliúde, continuo um inútil. Ando só de carro e quando me aventuro nas idas ao Morro ( não consigo me livrar daquele lugar, apesar de tudo ), são duas caminhadas: a chegada e a volta. Não há mais barcos que aceitem frete pra me deixar na praia. Resultado: quando vou, me instalo na varanda e de lá não saio nem que me arranquem. Andei me queixando de minha incapacidade e o sacana do meu genro Eduardo, o Pirata do Morro, me mandou uma foto com a solução pro meu problema, com o escrito:
-Pode vir, já temos táxi no Morro!
foto de eduardo ferraz, o pirata.


