sábado, 23 de novembro de 2013

A travessia de Nalva.






Sentada na escorregadia cadeira de plástico do Ferry das 18 h, retornando da Ilha depois do feriadão, olhando em volta, Nalva, pela primeira vez  pensou na sua vida. “Meudeus, o que estou fazendo aqui?”. Na cadeira à sua direita, Toinho, o maridão há doze anos, jazia semimorto, inclinado, cabeça na janela fechada, boca aberta, camiseta de meia subindo e descendo seguindo o ronco. Pernas esticadas e cruzadas, cheio de areia entre os dedos do pé. “Pelo menos o infeliz fechou a braguilha desta vez”. Bermuda folgada e a meio-pau,  a sunga verde aparecendo. A mão direita sustentava o queixo e a esquerda agarrava a chave do Chevette. Duas cadeiras à esquerda, Grace, a filha caçula tentava manter o poodle da família sob controle na base do cafuné, enquanto ouvia um arrocha no celular. “Tão linda minha filha com esse cabelo enroladinho preso num rabo-de-cavalo e essa mecha lisinha agarrada na testa...”. A cadeira entre as duas guardava as mais importantes peças daquelas viagens de fim de semana: o ventilador e o travesseiro. No deque de trás do navio, um grupo de pagodeiros fazia de tudo pra enlouquecer a todos. Foi quando Nalva se deu conta: o filho, Juninho, disse que nunca mais iria enfrentar uma viagem à Ilha; aquilo não era vida, ele não suportava mais. Preferia morrer a viver aquilo de novo, por isso passou a frequentar a Igreja onde passava os domingos e feriados entre os iguais em Cristo. Depois de pensar nisso tudo, Nalva concluiu que o melhor pra sua vida seria dar um basta

. Não ia acompanhar Juninho, mas enfrentaria  a fúria de Toinho, “ele que vá só da próxima vez, se quiser. Doravante faço o que gosto nos feriados: pintar o cabelo, enrolar uns bobs, fazer uma galinha terra pro almoço, e me esparramar no sofá pra ver Silvio”.

xeudizer:

anotações livres, leves, soltas