quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A Parteira Bernadete

Em 1980 concluí o Curso de Especialização em Saúde Pública na USP e fui imediatamente contratado pela Secretaria de Saude do Estado para trabalhar no Projeto de Desenvolvimento Rural da Bacia do Paraguaçu. Podia escolher entre quatro municípios onde me fixar e escolhi Maracás. Perto de Jaguaquara, o clima me atraiu, com altitude de 1000 m acima do níel do mar e temperatura média de 16 graus. É na verdade uma cidade com ar condicionado central, perfeita para calorento. Recém formado, fui com mala, cuia, cachorro, meninos e papagaio. Me apaixonei pela cidade e as pessoas me receberam como um filho que voltava. Fiz amizades que preservo até hoje, inclusive uma afilhada que sempre aparece aqui no blog. Ontem mesmo ela apareceu, desta vez como mensageira da morte. Me avisou que Detinha morreu. Bernadete Spínola, a parteira Bernadete, Detinha, minha Gordinha. Desde a Faculdade de Medicina que gosto de fazer parto; fui Aspirina, Aspirante e Interno da Tsylla Balbino e quem sai de lá pega qualquer coisa. Havia dois médicos em Maracás e tentei me destacar nos partos. Devido à minha imodesta destreza, logo a clientela cresceu. Detinha já era reconhecida como Parteira leiga e sua simpatia e amizade a indicaram para assistente, passou a ser minha parceira. Assim que completava a idade gestacional, eu encaminhava a paciente para Detinha que providenciava tudo. Quando chegava a hora, a parturiente a chamava, ela internava, fazia todos os procedimentos pré-parto e duas garrafas térmicas de café e só então me chamava. Quando dava, já deitava meio vestido; não raro acordava de madrugada com temperatura em torno de 10 graus, o saco colado na bunda, fazia um xixi com fumaça e ia devorar o café ou chocolate de Detinha. A gente ficava esperando o parto, conversando, às vezes por toda a noite - por que gostam tanto de parir de madrugada? era um questionamento bem constante entre nós. Era cansativo mas nunca foi enfadonho. Detinha fazia quase tudo e quantas vezes, num cochilo rápido meu, ela mesma não concluiu o trabalho? Era uma parteira segura, Detinha. Minha amiga, saudade de você. Não pude ir ao sepultamento mas não importa, ela sabia o quanto a admirava. Nunca mais fiz um parto mas todos que fiz, depois dela, sempre a tive como inspiração.

11 comentários:

Mãe de Iara disse...

Ai pai, que texto mais lindo...

M. disse...

Tão bonito. A Aeronauta tem razão, seus textos são maravilhosos. Foi ela quem me indicou o seu blog. Parabens. Abraço. M.

Nana disse...

que lindo pai. Com certeza aonde quer que ela esteja, ela está sentindo todo esse carinho que vc tem por ela.
Mal vejo a hora de começar a fazer OS MEUS PARTOS...os tão sonhados e esperados partos. Espero faze-los com tal vontade e profissionalismo, assim como vc e Bernadete faziam...até mesmo nas madrugadas mais frias. :D

Juan Trasmonte disse...

Bernardo, estava te devendo essa visita.
Em tempo, suas crônicas são ótimas. Vou voltar por aqui.
Abraços

Bernardo Guimarães disse...

Mai:
que bom ser visitado por vcs duas, filha e neta. espero vcs amanhã preu lamber a cria!
M.
Obrigado, Aeronauta é generosa comigo.
Nana:
filhota, ser parteira é duro!mas vou me orgulhar de vc; alem de tudo,está escrevendo legal, viu? escreva mais...

Bernardo Guimarães disse...

Juan:
elogio vondo de vc, é um certificado!
Abraço

Bernardo Guimarães disse...

Esta josta não corrige: não é vondo, claro, é vindo!

Renata Belmonte disse...

Seus textos são lindos. E obrigada por cogitar em me contratar:) Poucos me compreendem.

daniela disse...

Tio
Linda sua homenagem! Estou chegando. Bjs

Meninha disse...

Lindo, lindo, lindo e com um toque de humor. Parabéns, você é maravilhoso.

Janaina Amado disse...

Ô Bernardo, isso de fazer parto, ajudar a botar gente no mundo, deve ser sempre emocionante, por mais que a pessoa seja experiente, né não? Bonita a sua homenagem à parteira sua amiga!

xeudizer:

anotações livres, leves, soltas