quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Caro ouvinte




Participo de um programa da rádio local respondendo dúvidas sobre saúde, principalmente a da mulher. Isto já me deu alguns embaraços ao ser identificado e tratado como por star; fico podre de vergonha. E recebo muitas cartas. Uma delas me chamou a atenção: era de um senhor de 86 anos com o unico desejo de me conhecer. Passei quase seis meses, ou mais, relutando em atender a este caro escrevente e ouvinte, absolutamente dividido. Não queria passar a imagem de estrela, ao tempo em que pensava por que não? mas ele não queria saber nada sobre próstata ou espinhela caída. Só queria me conhecer, não sei se devo atender a isso. Me idealizou pelas ondas do rádio e entezou: "- quero conhecer Dr. Bernardo". Hoje, passando por uma rua sem calçamento para um velório, uma Agente Comunitária de Saúde me apontou a casa do fã secreto, ao lado da casa da defunta. Fui lá. Fiquei mais contrangido ainda com a recepção. Seu Agenor é cego, se levantou de sua cadeira cativa me deu um abraço longo e não largou mais minha mão enquanto conversávamos. Lá pelas tantas arrisquei saber o motivo de querer me conhecer e ele me garantiu que me conheceu menino pequeno na fazenda onde me criei, trabalhando para meu pai, e me falou com a voz ainda forte e a cabeça inclinada e o olhar morto pro outro lado, como os cegos, que falar comigo, estar comigo tantos anos depois, era a melhor maneira de se lembrar de quando era jovem, de quando podia ver. Ao me ouvir no rádio, avisava a todos que aquele doutor que está famoso, que todo mundo admira, ele quase viu nascer. De todas as suas referências, eu era a mais antiga. Não havia nada de tietagem no seu desejo. Seu Agenor ganhou um fã.


13 comentários:

valter ferraz disse...

Bernardo,
a vida nos prega umas presepadas às vêzes, menino.
Abraço forte

Janaina Amado disse...

Puxa vida, Dr. Bernardo, que emocionante! Como chegam longe, a longínquos tempos, as ondas do rádio, ein?

Marcus disse...

Dois.

Meninha disse...

Poxa tio, que coisa mais linda! Estou com os olhos cheios de lágrimas.

Judith disse...

Acho que nossa vida é um contraste absoluto: não tenho fans nem ídolos.
Tem cura para isso??

Renata Belmonte disse...

Por isso que, em regra, adoro pessoas idosas. Elas ainda vivem num tempo de gentileza.
Bjs

maria guimarães sampaio disse...

Primo, é fantástico como você me faz chorar com a mesma intensidade com que me faz rir.
Você merece seus admiradores e fãs.
Então tá: da próxima vinda à Bahia me traga uma caixa de fraldão e uma de lenço YES (existe ainda?)
Eu sei de quanto você quis ser médico. E é! Pena que você foi para o interior. Lembra quando eu não dava nem um peido sem lhe consultar? E a leps leps...

aeronauta disse...

"Estar comigo tantos anos depois, era a melhor maneira de se lembrar de quando era jovem, de quando podia ver." Parece frase retirada de um romance. Profundamente humano.

Luli Facciolla disse...

Oxe...
Lindo de morrer!

Beijos em todos!
Beijos na minha pequena sereia!

Anônimo disse...

Coisa mais linda pai, parabéns!
bjs da lôra

daniela disse...

Lindo,tio.Vc me emociona a cada história sua. Bjs

Palatus disse...

Caracas, Dr...me emocionei...parece romance, e dos bons. narrativa viva que traduz a vida.
Parabéns!

Nilson disse...

Bacana, mesmo. O ser humano é surpreendente, né não?

xeudizer:

anotações livres, leves, soltas