sábado, 8 de novembro de 2008

Rio de Alma


Minha cidade, é banhada por um belíssimo rio. Imbecilmente oficializaram seu nome como sendo Jequiezinho. Ridículo. Pra todos nós sempre será Rio de Alma ou Rio das Almas. É ele que nos separa de Taperoá. Tem um curso quase reto, de curvas pequenas e surpreendentes, uma floresta de Mata Atlantica exuberante lhe beirando, com muitas ilhotas e corredeiras impressionantes. Alguns trechos tem prainhas de areia alva. Estamos organizando um grupo interessado em percorrer toda sua extensão, descendo de bote. Gosto mais de agua doce do que salgada; Iara mais que sereia, Oxum mais que Iemanjá, bôto mais que golfinho, pitu mais que lagosta, cachoeira mais que marola, canoa mais que barco, banho de rio é melhor que banho de mar.

Na minha infancia meu rio me era proibido. O Rio de Alma é também um rio que leva quem se arrisca; correnteza não perdoa quem não sabe nadar. Sempre morria um nas suas águas, que o devolviam quilômetros abaixo, já beliscado por goiamum. Crianças eram preferidas pelo rio escuro, sabe-se lá porque esta preferencia mórbida. E o rio era o mundo de diversões da cidade que não tinha mais nada a oferecer. Como a gente morava na fazenda que tinha rios e cachoeiras e ofereciam quase nenhum risco, meu pai decretou: -"pode-se fazer de tudo por aí, menos tomar banho no Rio de Alma". Quando estávamos na cidade, as brincadeiras terminavam no banho de rio e nós, eu e meus irmãos, ficávamos só olhando. Desobedecer a ordem do pai, não, nunca, jamais. Adulto, já casado e com filhos, numa lavagem do Bonfim todo mundo se jogou no rio. Na hora "H" não consegui, empaquei no cais, como numa ordem pós-hipnótica.
Mês passado, voltando pra casa e passando pela ponte parei o carro. Eram nove horas da noite e não havia ninguem. A lua cheia já ia alta e clareava como um refletor; o rio cheio, transbordando. Me arrisquei. Tirei a roupa e nu, pulei da ponte, nadei, mergulhei, bebi água. Fiz as pazes com meu pai; me encontrei finalmente com meu rio, lavei minha alma.
.
foto da web, s/autor

9 comentários:

Meninha disse...

Quando for fazer o percurso, me chame, também prefiro rio que mar. Bjss

Mãe de Iara disse...

Não vou negar, prefiro o mar. Uma vez tomei banho no Rio das Almas com uma turma de amigos de Nilo, maravilhoso !! Mas deu febre no dia seguinte, será que foi praga de meu avô Carmilton ?
bjs

aeronauta disse...

Oi, Bernardo, também sou muito mais do rio que de que qualquer outra água.
E seu texto parece água de rio: dá sempre vontade de entrar.
P.S.: Obrigada pelas palavras no aeronauta sobre o aniversário. O que me dei de presente? Uma barra inteira, enorme, de chocolate amargo. Comi numa sentada!

maria guimarães sampaio disse...

Queria ter eu escrito:
"Gosto mais de agua doce do que salgada; Iara mais que sereia, Oxum mais que Iemanjá, bôto mais que golfinho, pitu mais que lagosta, cachoeira mais que marola, canoa mais que barco, banho de rio é melhor que banho de mar."
E aquele rio merveiê com as pedras gravadas nossos nomes, cadê?

katherine funke disse...

massa...! rio das almas. esse eu ainda não conheço. gracias pela visita lá, teu comentário carinhoso.

Renata Belmonte disse...

Meu livro chegou!!!!! Meu livro chegou!!!!! Estou super feliz!!!!
Obrigada!:)
Beijos,
Renata

Palatus disse...

Dr. toda vez que venho aqui sinto saudades da costa do dendê...afff...meu Deus! Por isso nao deixo de vir aqui enquanto não vou lá!
Abraço!
NIlson

Lua disse...

Lindo texto. Poético.
Lua

Nilson disse...

Por distração não tinha lido esse. Muito bom, mesmo. Poéticos os encontros com o rio, já adulto. E a sombra do pai que dá muito pano pra manga... Lá em Brumado tem o Rio do Antônio, hoje uma lástima. Na minha infância, ainda corria, mas era proibido tomar banho em trechos como o Sobocó - lúgubre, né não?

xeudizer:

anotações livres, leves, soltas