quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Motos e mentiras



Dois posts atrás comentei en passant algo sobre motos. Eu as adoro. Meu pai foi piloto de avião, numa época de aviação perigosa (amanhã falo sobre isso). Com medo do que poderia acontecer aos filhos, e como pouco proibia diretamente, vivia falando aos botões mas em voz alta, que se dependesse dele, filho algum seria piloto, entrava na política ou andava de moto. Como ninguem ousava sequer discutir o assunto, tomávamos os grunhidos por esporro. Jurávamos de pés juntos uns aos outros que jamais faríamos que o velho não queria. Era tanta convicção que alguem mais atento devia ter desconfiado.


A aviação sempre esteve em meus sonhos até os 7/8 anos, quando o meu oftalmologista descobriu que eu tinha um defeito congênito irreversível, sem visão central no olho esquerdo, que o fez decretar: -"vida normal mas não pode ser goleiro nem piloto de carros ou avião". Não tenho qualquer noção de profundidade; não me jogue nada que não aparo; para estacionar um carro, ou bato no da frente ou deixo mais de metro de distância; descer degraus já me causou algumas luxações e uma fratura de tornozelo. Acho que ali nasceu a outra escolha, a medicina.


Meu pai morreu em 1987.


Sempre participei de militancia política, desde 68 quando aos 15 anos fazia pequenos serviços aos companheiros, isolados no Severino Vieira. Mas daí a ser candidato, foi só em 2004 e vi o que é praga de pai. Desta, estou livre.


A moto veio logo depois. Comprei uma Honda Bros e sempre andei feliz, pra baixo e pra cima por estas estradas. Usava como justificativa o fato de morar no interior. Estou comprando uma maior agora e a meta é uma Harley em dois anos. Neste caso, como a praga podia ser fatal, ele deixou passar e vez em quando tenho a sensação de que meu pai está na minha garupa, curtindo um vento no rosto, sonhando com seus aviões, me avisando suavemente,


-" mais devagar, parente!..."
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foto bernardo

17 comentários:

Marcus Gusmão disse...

Bernardo, você é uma figura!
Mas e as mentiras?

Bernardo Guimarães disse...

menti a meu pai que nunca seria político ou andaria de motos!
QUER MAIS? já me torturo o suficiente...hehehe.

Meninha disse...

Linda história! Me emocionei muito, pois como eu era muito nova quando Tantão morreu, não me lembro muito das histórias dele... o que ficou na minha memória foi ele sentado na varanda da Casa Rôla vigiando Kiko pegar onda e com Tula aos seus pés.
Você está lindíssimo grupitado na moto em?! Magrinho, magrinho. Bjss

Personagem Principal disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Personagem Principal disse...

Meu sonho era sentir esse vento no rosto, pilotando uma moto... mas nem de bicicleta sei andar, quanto mais.
Lindo texto! Bjs.

maria guimarães sampaio disse...

Emoção com as histórias de meu tio Carmilton (meu padrinho). Para parar o chororô, relaxemos: meu pai adorava negociar presente de aniversário. Já adultona, anos 80. Então, Maria, este ano o que vai ser. Querendo uma bicicleta, disse: uma moto (as negociações...) Ele mandou ver preço etc e: deu a moto yamaha 125. Aprender moto aos 30 ou mais? Golpe.
Depois de muitas barberagens, quedas de moto parada e que tais a dita cuja foi trocada por uma teleobjetiva

Renata Belmonte disse...

Que bom! Espero que você goste!
Beijos,
Renata

aeronauta disse...

Que texto lindo!

ediney disse...

política...velocidade, nostalgia, aventura,saudade...texto de muitas certezas...vidas vividas

Renata Belmonte disse...

Espero que vc tenha gostado!
Bjs

Anônimo disse...

lindo texto,pai, emocionou! bjs, Lua

Juan Trasmonte disse...

Bernardo, estou comovido por este texto, acho que vou deixar o meu comentário para amanhã
Abraços

aeronauta disse...

Eta que esse homem aí na moto já deve estar cansado! Mande o coitado passear e vá escrever.

Edu O. disse...

sem poder consuzi-las eu adorava andar na garupa da moto de um ex-namorado de minha irmã. era quase voar!!!!

Juan Trasmonte disse...

Quando eu era adolescente tudo que eu queria era uma Honda 400 como a que aparecia num aviso de uma revista de música, pilotada por um japonês e com a lenda "ser dono do sol e do vento". Meu pai negou-se taxativamente a comprar aquela máquina. Só me restou andar na garupa das motos dos amigos. Hoje quando vejo alguns amigos com pregos nos ossos acho que ele não estava tão errado assim.
Perdi papai em 86. Não houve promessas, mas também já fiz muita coisa que eu lhe disse que jamais faria ou que não voltaria a fazer.
Abração

Nilson disse...

Belo texto sobre a presença paterna e essa mania de contradizermos, a nossos pais e a nós mesmos. Quanto às motos, admiro quem pilota uma delas com todo o fervor de um sem-jeito total. Nem preciso passar pelos apuros de Maria: sei que ia cair toda hora, uma lástima. Só dirijo veículos de quatro rodas!

Menina da Ilha disse...

Com quinze anos resolvi aprender andar de moto, coisa proibidíssima lá em casa, principalmente para uma mulher. Andava escondido e passava longe da minha rua. Um dia meu pai estava conversando e um amigo soltou a pérola: _ Menina da Ilha é danana hem? Anda de carro, bicicleta e até de moto.
Meu pai quase teve um enfarto. Mas não me bateu não, viu? Gostei do seu texto.

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