quinta-feira, 8 de julho de 2010

Amigo anonimo


Me acostumei com o cumprimento do homem na beira da estrada. Todo santo dia, na ida e na vinda, em Cajaíba, sentado numa cadeira branca de plástico levanta a mão e sorri: bom dia, boa tarde. Chove, sinto sua falta. Quando me aproximo, acendo os faróis e buzino loucamente, e ele só falta se jogar. Criamos essa amizade. Não sabemos os nomes. Uma carona me disse que o homem do aceno é portador de deficiência mental e que o seu grande prazer é demonstrar que conhece todos os motoristas que passam por ele. Mesmo sabendo disso, continuo achando que aquela manifestação toda é só pra mim.

Duas semanas que não o vejo. Nem está chovendo na hora que passo no ponto do amigo; às vezes vejo alguma pessoa na porta da casa que imagino ser dele, mas não tive coragem de parar e perguntar sobre a ausência. Ando com medo de certas respostas.

6 comentários:

Matheus disse...

Pensei que era somente eu que achava aquele senhor em Cajaíba uma figuraça, Bernardo... Sempre achei o máximo a alegria dele em cumprimentar tudo que é motorista. Seus posts sobre a região são muito bons e mostram que, apesar de tudo, nossas terras ainda tem muitos locais e figuras interessantes para observar e refletir. Um abraço!!!

Edu O. disse...

Hoje passando carro na rua um senhor andando na rua, visivelmente tendo alguma deficiência mental, me acenou com um sorriso lindo, fazendo um legal muito contente. Eu retribui e ganhei o dia. Chego aqui e vejo este post. Será que o teu amigo não foi este que me encantou? Quem sabe...

Chorik disse...

Deficientes mentais que acenam não são tão deficientes quanto os sãos que matam.

Gerana Damulakis disse...

Já passei por algo parecido e fui atrás da resposta. Cadê aquele tal que ficava aqui etc etc? A resposta é aquela mesma que vc pensou e teme ouvir.

Eliana Mara de Freitas disse...

As vezes um texto diz algo, um pedacinho, um verso, uma palavra, uma ilha, algo que traduz nosso interior:
Pra mim, esta sua frase é minha parcial tradução:
Ando com medo de ceras respostas.

Seus textos pra mim são crônicas-líricas. Se é que esse gêneroe existe!

Lidi disse...

"Ando com medo de certas respostas." Essa frase traduziu o interior de Eliana e o meu também. Estou passando por um momento muito bom, mas temendo ouvir certa resposta, não exatamente a que você se referiu, porém, sinto como se este post tivesse sido escrito para mim. Adoro quando conseguem expressar o que eu não consigo. Você escreve bem demais, Bernardo. Um grande abraço.

xeudizer:

anotações livres, leves, soltas