sexta-feira, 22 de maio de 2009

Minha primeira noite


1957.

Chegamos à fazenda na boquinha da noite, posso estar enganado, não sei se pelo defeito na visão descoberto anos mais tarde ou se as crianças lembram de tudo meio escuro mesmo. A caminhonete estacionou na porta da frente, aberta com uma chave de uns 15 centímetros. De repente um bando ( socorro, coletivo de morcegos, rápido!) de morcegos fez uma revoada sobre nós. Eram muitos, muitos mesmo, uma coisa assustadora para crianças da cidade que sonharam ir morar na fazenda. Cadê os encantos? A porta rangiu, uns morcegos retardados passaram e o interior da casa tinha um cheiro ( novamente o cheiro...) que nunca esqueci. Pensem em dezenas de sovacos de morcegos. O chão, um tapete de cocô de morcego. No forro da escada, uns dois dormiam sem sacar que a galera tinha vazado. Ficaram alí até quando minha lembrança alcança. Sobrou pra minha mãe ( a empregada ainda vomitava pela viagem de barco): limpar a casa de 300 m² que ela jamais vira antes, cuidar do marido doente, cuidar de cinco filhos, fazer comida, desarrumar os baús, forrar camas, acender os candeeiros, providenciar velas, botar penicos embaixo das camas, tirar água do porrão pra moringa, lavar banheiro, tanger morcegos, consolar os filhos e convencê-los de que um dia ainda iriam gostar dali.

1985.
Meu pai vendeu a fazenda. Nós, os filhos, sofremos muito porque aprendemos a amar aquele lugar. Alguem pergunta a minha mãe:
-"Vai sentir saudades?"
-"Não".

foto:geocities.com

12 comentários:

aeronauta disse...

* A chegada, em 1957, cena de grande romance.
* Tenho enorme curiosidade em saber mais sobre sua mãe. (Fiquei com a imagem dela via "Rosália Roseiral".)

Lidi disse...

"Pensem em dezenas de sovacos de morcegos. O chão, um tapete de cocô de morcego. No forro da escada, uns dois dormiam sem sacar que a galera tinha vazado." Morri de rir. Adoro a maneira como você escreve.

Coitada da sua mãe. Tanta coisa pra uma pessoa só. Mas, puxando para a minha sardinha, as mulheres tem mesmo uma força incrível. Um abraço.

Lidi disse...

Em relação ao teu comentário lá no meu blog, estou na mesma situação que você. Moro em Feira de Santana. Estou divulgando o evento, mas acho que não poderei ir. :(

maria guimarães sampaio disse...

AH! mas tia Leonídia era um ser muito especial. Olhe... amar como ela amou tio Carmilton! As meninas irmãs de Carmilton sempre nutriram a maior admiração pela cunhada que amou o irmão delas incondicionalmente. Lembro (eu era bem menina) de minha tia vestindo preto às quintas pagando promessa a Santa Rita dos Impossíveis (imagino, nunca ninguém me contou o porque da promessa).
Meu tio de sangue é ele, Carmilton, meu padrinho. A tia, tia porque se fez... é ela.
Me vem à memória, eu já adulta a comer na mesa de tia Leonídia e ela feliz com minha alegria a gemer e me deliciar com os maravilhosos sabores.

Janaina Amado disse...

Lindos textos, de Bernardo e de Maria.

Edu O. disse...

tenho horror de morcego, mas teu post me fez viajar junto com vc. abraço

Renata Belmonte disse...

Morcegos é TÃO minha infância!!!!!!
Adorei o texto!
Bjs

Jú(liana) disse...

Bernardooooooooooooooooo ...
Vc me faz lembrar de cada coisa!!!!
Amava ir p fazenda de Tio Carmilton!!!! Meu grande problema era a hora do banho ... o fôrro era aberto e tinha q passar pelo DESESPERO de ser acompanhada por aqueles morcegos horroriveis!!!!!

Maria Muadiê disse...

Bernardo, em poucas palavras vc conseguiu muito, muito!
Me solidarizo totalmente com sua mãe. Me fez lembrar os livros de Doris Lessing sobre a colonização na África.

Juan Trasmonte disse...

Bernardo, eu sempre achei morcego um bicho simpático. Mas depois de ler teu texto, confesso que devo rever esse meu olhar.
E como vai a vida fora do governo?
Abração

Maria Judith. disse...

Não sei o coletivo de morcegos, mas a bosta deles chamam de guano. Ou seria guacamole?

Meninha disse...

vó Liú foi um verdadeiro exemplo da mulher multifacetas, era mãe, esposa, de trabalho...o que mais? O que mais fosse preciso!

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