sexta-feira, 19 de junho de 2009

Primeira Comunhão


Naquele tempo, era a Primeira Comunhão. Este negócio precisa ser bem explicado pois está em extinção e tirando dois ou três leitores, o resto precisa saber do que se trata. Enquanto as crianças nem sabiam direito o que estava acontecendo e por desejo de participar do ritual - as meninas vestiam-se de freiras!- as familias católicas entregavam seus filhos à Santa Igreja. Os pais ficavam aliviados, lavando as mãos: agora é com eles, minha parte está feita; a Igreja vislumbrava a captação ( cooptação) de mais algumas ovelhas. Para as crianças, não era tão simples. Eu sofri como Jesus na cruz!. Explico. Meu pai era o Prefeito de Nilo e frei Flavio, morava em nossa casa, assim como a professora. Tinhamos uma relação de amizade com o padre, que jogava bola com a gente. É vem a 1ª Comunhão. Para receber a hóstia sagrada, era necessário fazer a confissão, na véspera! Agora pensem. Criança do interior, morando na fazenda, solta no pasto, hormônios começando a circular, ovelhas dando bobeira...como se diz uma coisa dessas a frei Flávio? E a confissão foi feita lá em casa, na sala do fundo, eu ajoelhado, Frei Flávio sentado numa cadeira com o olhar perdido que reconheci, além, na psicanálise. Disse tudo, mas nunca mais a amizade foi a mesma. E as próximas 24 horas sem pecar ( ou a hóstia se transformava em sangue na boca)?
-" Mãe, tomar banho de rio é pecado?"
-" Mãe, pode chupar abafa-banca?"
O pior era evitar o pecado por pensamentos. Por palavras, dava-se um jeito. Por obra, era fácil, era fingir que não morávamos na roça, por 24 horas. Dende casa, olhando um pra cara do outro, tentando identificar um pecadinho que levaria o pecador a queimar no mármore do inferno.
Fizemos 1ª Comunhão juntos, nos 50 anos de meu pai, eu, Leonardo, Eduardo e Paulinho, num evento coletivo. Foi tudo muito bem mas dois amigos não aguentaram a pressão: Tutu desmaiou no altar e Bola Sete vomitou no pé do padre. Um esqueceu que devia estar em jejum e o outro, de confessar que comeu uma jega.
Compreendi, por fim, o que é temer a Deus.

foto da primeira comunhão de minha irmã ana maria,com meu pai e minha mãe. autor não identificado

11 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

E eu pensando que o desmaio de Tutu na primeira comunhão de Juliana fôra preocupação com meu acidente... já era viciado no desmaio!
Sim, aquele acidente que lhe telefonaram, você desligou o telefone rápido para ir me ver... teve de aguardar novo telefone não dera tempo à pessoa dizer onde eu estava. Conte essa completa!

Chorik disse...

Minha primeira comunhão também terá postagem em breve. Deixa eu achar minha foto de calça vinho e cacharrel branco de manga comprida engasgando com a hóstia.

Marcus Gusmão disse...

Lembro da gravatinha preta que fechava com dois cliques e de ter que dividir com o sacana do padre meu segredo dos cinco contra um nas noites da buzina do Chacrinha.

Janaina Amado disse...

Ai, a-mei a maneira de você contar esta história deliciosa!
Eu não fiz primeira comunhão (!!!), mas um vizinho amigo meu me disse, apavorado, sobre o curso de catecismo que o preparava: "O padre divide a gente em duas filas, os de pecado mortal e os de pecado venial". "E qual é a sua?", perguntei. Ele me segredou, misteriosíssimo: "Mortal!" Nunca soube qual era o pecado dele, não quis me dizer de jeito nenhum. Até hoje especulo.

Janaina Amado disse...

Bernardo, deixei um selo pra você no acreditando - este vem da Itália. Abração!

Nilson disse...

Uma das minhas primeiras lembranças, novinho, é a de ver os meninos que comungavam - pra mim, sete anos era algo muito, muito distante. E, mais tarde, o padre de Bom Jesus da Lapa que realmente queria que eu contasse tudo - os de Brumado e Caetité eram só pergunta e resposta, sim, não, sim, não. Lá na Lapa foi um sufoco, mas não houve jeito: "conte, meu filho". Entrei mudo e saí calado. Esse parecia mesmo com psicanálise.

aeronauta disse...

A maneira como você conta essa história é maravilhosa, Bernardo, extremamente literária.
Lembrei então, claro, de minha primeira comunhão: achava que a hóstia era, de fato, o corpo de Cristo, e o vinho, o sangue. Me senti o máximo fazendo parte daquele banquete privilegiado.

Renata Belmonte disse...

Na minha primeira comunhão, me achei tão linda com a roupa branca que quase esqueci que a vaidade é pecado.
Adorei seu texto! (como sempre!)
Bjs

Edu O. disse...

Vim, me emocionei com tua mãe, ri das fantasias e lembrei da minha primeira comunhão. Vc se torna íntimo e é tão bom!!!

Maria Muadiê disse...

Muito bem contado!
Em minha primeira comunhão sofri muito, apavaorada com meus pecados. Também foi primeira e única, nunca mais quis saber dessa história.

Estive em Valença esses dias, me lembrei de vc.
Foi muito triste.
um beijo

Anônimo disse...

Deu ate medo... Entrei no catecismo agora...mas gostei da historia...

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