terça-feira, 16 de junho de 2009

Minha mãe


O que escrever sobre alguem que quem me lê não conhece? Afinal, para quem endereçamos nossos textos? Hoje vou escrever para mim.

Faria 96 anos hoje. Até consigo imaginar como estaria. Morreu com 83, muito antes do muito que poderia viver mais. Nasceu numa fazenda nos Pernambués e meu avô criou os filhos com as frutas que colhia na roça. Normalista, professora que jamais lecionou. Casou, enfrentou o preconceito da família rica do noivo e depois conquistou a todos. Roeu beirada de penico, ralou, criou seis filhos, ficou rica, perdeu tudo, enfrentou dois recomeços de vida depois de ter tudo. Nunca usou jóia além da aliança, em promessa a Santa Rita. Minha mãe foi apaixonada pelo marido até a morte. Nunca vi paixão igual. A pessoas que se metiam a achá-la submissa, dizia que sempre agiu para manter o amor e o casamento, a família, este o preço para não usar jóia. Teve com a sogra, vó Carmena, paixão de filha e mãe. As cunhadas respeitavam agradecidas pelo amor dedicado ao irmão. Virou comadre de duas das mais queridas, Magá e Norma. Sábia em sua simplicidade, minha mãe foi a pessoa mais generosa que jamais conheci. Tomou o filho do marido como seu e jamais permitiu que se dissesse que não era seu. Amou tanto Paulo quanto aos outros. Declaradamente. Incondicionalmente. Foi a ultima pessoa a quem dirigiu o olhar.
foto da formatura de leonidia sem menção do autor.

13 comentários:

Luli Facciolla disse...

Às mães aniversariantes do mês...

Belo texto!

Beijo

Janaina Amado disse...

Emocionante, Bernardo.

Chorik disse...

Ninguém se importará se você continuar escrevendo assim, dessa forma exuberante, para você mesmo. Não conhecemos sua mãe mas soubemos por você de sua qualidade mais importante: a generosidade, qualidade rara nos dias de ontem, hoje e amanhã.

Renata Belmonte disse...

Poxa, Bernardo. Tenho muito orgulho de pertencer a essa rede de blog, onde posso encontrar textos brilhantes e belos como o seu.
bjs

maria guimarães sampaio disse...

Sou testemunha e sempre quis muito bem à minha tia. Lembro dela com saudade. Em minha agenda tenho o retratinho dela no dia de hoje. Beijos.

Marcus Gusmão disse...

Levei para a espera de uma consulta ontem um livrinho de bolso amarelado que vive vagando aqui na estante, o Cartas a um jovem poeta, de Rilke ( http://www.releituras.com/rilke_cartpoeta.asp ). Só deu tempo de ler um pedacinho (sou um eterno leitor de pedacinhos) justamente o começo da primeira carta, em que ele aconselha o sujeito a olhar para si, a escrever para si e esquecer os outros: "Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança.". Continue, portanto, escrevendo para si. Nós, leitores cativos, agradecemos. E sua mãe não é de todo nossa desconhecida. A capitã daquela nau e comandante daqueles primeiros dias no novo mundo já havia se revelado aqui em toda a sua nobreza.

aeronauta disse...

Parece que conheço sua mãe de muitos anos, através desse seu perfil amoroso, forte, bonito.

miro paternostro disse...

linda a foto, linda ela. vc sabe que a minha primeira analista se chamava Leonídia Guimaraes???

Maria Muadiê disse...

Bernardo, fiquei emocionada. Belo texto, bela foto, e antes de tudo, linda mãe.

imonizpacheco disse...

É. Parece que conheço, só pelos seus escritos. Ela deve ter sido não só generosa como muito corajosa para dar conta de tudo e todos.
Belo texto. Parabéns.Continue escrevendo assim para voce, em primeiro, e para nós, leitores e admiradores.

Meninha disse...

Me deu um nó na garganta... não sei que dizer.

Adelino disse...

Bernardo, vim lá do blog da Janaína, atraído talvez pelo seu nome. Talvez não saiba, mas Bernardo Guimarães foi um grande escritor e poeta mineiro muito comentado e admirado nas escolas públicas de Minas Gerais (acho que era de Belo Horizonte).
E aqui chegando vejo que descobri um blog dos mais interessantes.
O texto sobre sua mãe me comoveu bastante.
Um grande abraço, prazer em conhecê-lo.

Lidi disse...

Bernardo, continue escrevendo para você e publicando aqui, vamos adorar! Lindo texto, linda mãe! P.S: Respondendo ao teu comentário no meu blogue: Apareça no evento. Você vai poder prestigiar aquela galera maravilhosa e eu vou ter a chance de te conhecer pessoalmente. Grande abraço!

xeudizer:

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