quinta-feira, 11 de março de 2010

Fabricio Matogrosso


Meu amigo, muito amigo, tipo irmão. Todo santo dia, pelo menos um telefonema pra falar bobagem. À noite sempre vinha em casa tomar um café com canela e rolava abobrinha até altas horas. Fabricio tinha uma inteligência aguçada. Super bem humorado, nunca perdia uma piada, com trocadilhos sinceramente engraçados. Louco por política, foi mentor de candidaturas, muitas vitoriosas, da atual safra do Baixo Sul, seu amado Território ( para mim, seu eterno Primeiro Ministro, como o chamava, e ele ria, balançando a pança). No momento, aticulava candidaturas a deputado e estava fazendo misérias, conseguindo apoios antes inimagináveis para seus candidatos. Ficou a meu lado, sempre, sendo o unico a me visitar no mesmo dia em que me mandei da loucura, da aventura que foi minha passagem pela Secretaria de Saude de Camamu. Aliás, foi dele a minha indicação.

Mataram Fabricio anteontem, dia 9, em Valença, no meio da tarde, no meio da rua. Cinco tiros enquanto comprava pão pra Vitória e Pedrinho. Em tão pouco tempo, perco dois irmãos assassinados na mesma cidade.

Filho de Ogun, da Casa de Juquinha, sua mãe de santo, a quem ouvia até pra tossir. Professava sua religião com uma fé inabalável. Vivia repetindo que era inatingível por ter Ogun protegendo sua cabeça. Morreu vestindo uma camisa com um desenho de Iemanjá. Onde estava Ogun quando a primeira bala o atingiu logo na cabeça? Outra das cinco balas atravessou Iemanjá, que também tombou morta. Morreram os três. Morremos todos um pouco. Há um silêncio incômodo no Baixo Sul. Tambores mudos. Só seu brado de guerra que usava diariamente ainda bate no meu ouvido:

" A VERDADE LIBERTA!!!"

19 comentários:

paula disse...

Saudades ficaremos sem a levesa de suas palavras e encanto da sua inteligência..tive o previlégio de conhece-lo e dizer que foi um prazer conhecer vc e triste saber que vc partiu e não se despediu de nóis..Aki de Brasília estimo muito a sua partida e rogo a Deus que te guarde em seus braços mansos e tranquilos..sentirei sua falta..Maldito aquele que tira a vida de um ser humano..maldita seja ele..

Gerana Damulakis disse...

Que coisa mais absurda!

maria guimarães sampaio disse...

Ai primo, eu não aguento mais tanta violência. Que merda é esta? as pessoas saem matando assim, sem mais sem menos. E estes governantes de bunda, de porra, da casa do caralho não sabem que estamos em guerra civil? E quem mais mata é a polícia, está nos jornais.
Porra, caralho, caceta.
De que adianta eu ficar chorando como uma bezerra desmamada em frente ao compu?

Renata (impermeável a) disse...

Hoje pela manha fiquei sabendo do assassinato de "Glauco" e seu filho!
Adorova seu humor....

afe........ o que vamos fazer sem nossos bem humorados?
o que vamos fazer com tantos mal humorados assassinos?

Meninha disse...

Conheci Fabricio em uma das suas visitas à sua casa... me encantei com ele. Não o conhecia direito, mas fui atingida também por esta perda... toda a dor que eu sinto pela morte de meu pai agora se duplicou.
Uma pergunta que ainda não foi respondida agora se torna dupla: Quem matou Eduardo? Quem matou Fabricio?

I.Moniz Pacheco disse...

Não saberemos nunca quem matou. Sabemos quem rouba, quem engana, quem avacalhou e avacalha o nosso país. Quem desvia os rios do nosso dinheiro para os próprios bolsos, bolsas, meias, cuecas. E daí?
Continuamos sem educação, sem saúde e sem segurança. Continuamos a chorar nossos mortos.
É o que ainda nos permitem.

Marcus Gusmão disse...

Cara, esse mundo tá cada dia mais chato.

Nilson disse...

Vim para lhe dar os parabéns e me deparei com essa notícia triste. Ontem foi Glauco: estão mesmo tenebrosas as coisas. Força, meu caro amigo! E, ainda que o momento seja tão difícil, te mando um abraço de carinho, respeito, admiração, conforto.

Maria Madalena disse...

Voce colocou o sentimento geral, o silêncio, é a dor que nos cala, nos deixa indefesa, e ao mesmo tempo nos acovarda. Fica um pedaço de cada um pedindo socorro e respostas, que não chegam e que não consolam.
Mesmo que estejamos de passagem...
e que devemos fazer fazer algo especial e inesquecível no espaço do nascimento a morte que é a única certeza, e isso nosso amigo fez: me disse que estava de bem com a vida, é isso que importa, ele soube viver o aqui e agora.

Maria Muadiê disse...

foda.

Menina da Ilha disse...

Sei que vc está muito triste com a morte do seu amigo. Aos poucos Deus vai lhe consolando e com o tempo, não vai mais lembrar dele com tristeza porque virá na sua mente só os momentos alegres que passaram juntos. Passei para lhe desejar feliz aniversário com um dia de atraso. Tudo de bom. Bjos em Iara.

Eliana Mara Chiossi disse...

Não o conheci, mas me solidarizo com a sua perda, Bernardo.
Passei por aqui para agradecer pela sua visita e por suas palavras, que me animam, nesta segunda-feira ensolarada.
Te desejo bom dia!

Eliana Mara Chiossi disse...

Seu texto é comovente, e deixa no ar uma pergunta incômoda: será que o mal tem mais força que o bem?
Ou temos que acreditar que há mesmo uma hora que é só nossa e até os deuses do bem nao podem interferir?
Afora isso, tem a questão, complexa, difícil de lidar, da violência, da corrupção, do poder, que eu, sinceramente, não entendo, mas vejo que começa pequenininho, nas mínimas relações, em que se maltrata um trabalhador braçal, um morador de rua, sei lá...
A violência parece andar de mãos dadas com a banalização da morte!
Fique bem!
Continue assim, reverenciando seus amigos e lutando para fazer o seu melhor.

Abya Yala disse...

Conheci Fabrício ainda menino, era década de oitenta e suas duas irmãs, que amo como minhas irmãs e sua mãe, que foi mãe para mim e seu pai Nelson com sua sensibilidade poética. Morei um tempo na sua casa, era um hippie que foi acolhido por esta familia maravilhosa. Deus conforte a familia Matogrosso nesse momento tão difícil.
Rev paulo Roberto
Osasco_SP

aeronauta disse...

Triste história. Fiquei imensamente tocada. Um abraço e fique bem.

Anônimo disse...

Há histórias que, de tão tristes, deveriam ser apenas roteiro para Lars Von Trier. Perfeito seria o mundo se as dores fossem apenas uma música de Chopin. Ultimamente a vida anda tão absurda...
Pablo Sales

Edu O. disse...

Essa barbárie que nos toma diariamente nos deixa com um nó eterno na garganta e o medo constante. Perder amigos/irmãos é sempre um perder nós mesmos.

Lucas de Souza disse...

Perda lastimável. Foi um dia triste e continuará sendo.
Me lembro que foi ele que me apresentou você quando eu corria o interior da Bahia aproveitando as caronas de Javier Alfaya.
As lágrimas são grossas ainda.

Priscila disse...

Beca, estou sem chão...sem reação... Acabei de ver na net e estou inconformada...
Sol

xeudizer:

anotações livres, leves, soltas