quarta-feira, 8 de julho de 2009

Lendas rurais: O Lobisomem


Como é: magro, amarelo, olhos vidrados, corpo peludo.

Quem: ultimo de sete filhos ou nascer de compadre e comadre.
Quando: qualquer idade; quando amaldiçoado por pais ou padrinhos.
Onde: quaresma, dias 13, lua cheia. Quando coincidem os tres, é batata.
Maldição: percorrer sete cidades na noite da maldição e voltar antes do galo cantar.

O que come: crianças pagãs, cachorros, sangue humano. Atualmente, galinhas.
O que faz: morde quem aparecer; desvirgina donzelas.
Morre: com tiro no dedo mindinho do pé e com bala melada de cera de vela de altar.
em Lobisomem: Assombração e Realidade-Mª do Rosário T de Lima.

Acordei com um barulho no quintal, de animal grande pisando em casca de carangueijo, já que goiamum, lá em casa, nem pensar. Animal grande não pula muro, então é gente. Pé ante pé, cu no ponto, luz da lua, vi a touceira de açaí se mexer. É ali. Já pulei com o berro engatilhado e um grito pavoroso desses que a gente dá quando está com medo e pensa que pode matar o outro de susto. Nem. O ladrão não se mexeu e nem era ladrão. Era um lobisomem. Com a mão cruzada nos peitos, pálido como só ele mesmo, caiu sentado e balbuciou:
-Quase me mata de susto!
-E eu?
-Mas eu é que sou o lobisomem!
-Mas que diabo você está fazendo aí uma hora desta, já quase na hora de desvirar?
-Dando uma cagadinha; na rua é impossível, nas casas, nem tento. Saí pra comer uma coisinha, me distrai e quase perco a hora. Se desvirar na rua, vão saber quem eu sou. Deixeu desvirar aqui no seu quintal...
-Crendospadre!
-Dotô, então deixa eu ir. Vira pra lá esta bala com cheiro de vela e este punhal que a lua tá mostrando a prata... Já corri as sete cidades e tenho de voltar pra minha casa antes do galo cantar, pra cumprir meu fadário. Levantou e pude ver o montinho de cocô. A fedentina subiu.
-Porreta, você! Pula meu muro, me acorda de madrugada, me dá um susto feladaputa, caga no meu açaí ( sei lá o que vai acontecer com os frutos!) e quer sair de fininho? Não senhor! De graça, não. Cate seu cocô e se pique. Vá desvirar lá em Taperoá, noscambau. E largue minha galinha aí!!!
O bicho fez força nas traseiras e saltou o muro. Dei dois tiros pra cima, nem mirei o pé. Alguem há de ter ouvido e, se perguntado, respondo. Aqui, todo mundo acredita.
Onde já se viu...era só o que me faltava, um lobisomem cagando no meu quintal; e logo na minha touceira de açaí, bem onde, vez em quando na lua cheia, dou uma cagadinha...!
foto da web: www.hotfrog.com.br/trilha do lobisomem. raul, quando viu, me garantiu que foi ele quem fez a foto. vá saber...

15 comentários:

aeronauta disse...

A-do-rei! Escrita de mestre. Lobisomem fazendo cocô é muito original!

Chorik disse...

Pra quando é o teu novo livro Bernardo? Esse texto está literalmente fantástico!

Renata Belmonte disse...

Beernardo,
Esse foi tudo de bom!!!! Como disse o Chorik: literatura fantástica nos dois sentidos!}(rs)
bjs

Lidi disse...

Adorei o post, Bernardo. Sempre adoro! Esse lobisomem até que era gente boa, poxa! Gostei dele! (rs) Valeu pelo comentário lá em meu blogue, viu? Grande abraço!!

Meninha disse...

P.Q.P. QUE TEXTO MARAVILHOSO! PARABÉNS!!!

Viviane Costa disse...

Oxe, e isso é ficção? Jurava que era real... rs! De primeira, Bernardo!
Bjs.

Gerana disse...

Muito bacana, adorei a leitura.

Lua disse...

KKKKK! Massa, pai, adorei o texto!

Nilson disse...

Original, mesmo: nunca teria me ocorrido um lobisomem cagando. Grande texto, doutor Bernardo!!! (E será uma honra receber você, claro, junto com os outros e-amigos lá no Tom do Saber!)

Nana disse...

hehehehehe sensacional!!!!!!!
adorei, pai!!!!

Janaina Amado disse...

Ãh ãh!!! Eu sempre soube que havia um outro ser, mítico, escondido aí dentro deste dotô - agora sei que é um lobisomem cagão!
Adorei, Bernardo - você sabe que amo lobisomens de paixão.

Edu O. disse...

adorei a cagada do lobisomem. arrasou!!!

Marcus Gusmão disse...

Ops! Este é o comentário 13. Eu me recuso.

Marcus Gusmão disse...

Naquele noite de janeiro era lua cheia na ponte da Saici. Poderiamos ter conhecido os dois!

maria guimarães sampaio disse...

KKKK, primaldo. O povo ainda pensa que é ficção. Ninguém imagina tudo o que acontece em nossos quintais (até mesmo elevadores, quando moramos em prédios de apartamentos). Repara... vosmicê tá ajuntando essas verdadeiras ficções?

xeudizer:

anotações livres, leves, soltas