terça-feira, 21 de outubro de 2008

Frases perfeitas I


Ouvida no serviço de som do navio Lobo Dalmada, que fazia o percurso Belém-Manaus, em 1974:

- Atenção senhores passageiros da premêra crasse: dirijam-se ao salão de refeiçãos, onde será servida a referida!


Maria Sampaio é testemunha auricular.

20 de outubro


Há dias para se comemorar e dias para se esquecer. O que fazer com os que nos dão motivos para os dois? Neste dia perdi minha mãe, na mesma data em que comemoramos o nascimento de Meninha. Para quem já conhece as histórias de Mena, a irmã, apresento -lhes a sobrinha, a quem coube receber o nome da outra.


Sobrinha, adotada recentemente como filha, passou o dia ontem todinho preocupada se eu lembraria seu aniversário. Sabendo disso, fiz um misteriozinho, e só à noite bati na sua casa. Uma torta de palmito, outra de chocolate, Fanta Uva - tudo que gosto na vida e todos os presentes descobriram que a comilança era pra puxar meu saco. Na saída, se entregou:


- Ô meu tio, pensei que ia sair no seu blog!


Dei mais uma disfarçadazinha. Amanhã eu posto, hoje não, estou de barriga muito cheia, capaz de só falar da comida, que estava divina. Amanhã eu posso dizer, e ela vai ler bem aqui, que ela é a filha que eu escolhi.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Paraguaçu, 1933


Dou dez contos de réis a quem encontrar uma mulher na foto. Clique na foto para ampliar.


Por que será que não as vemos:

a) não havia mulheres no mundo ainda ( todos com as costelas intactas).

b) mulheres não viajavam de vapor.

c) estavam todas no galpão coberto

d)todas foram lançadas ao rio para servirem de comida de peixe.

e) outras respostas a seu critério.
foto de valter cachaça, 1933: ponte de atracação no rio paraguaçu

sábado, 18 de outubro de 2008

Aeronauta



"Estarei, amigos, na LDM. Escondida na estante onde tem escrito com letras vermelhas: Poesia. Minha roupa é de um azul bem tênue, quase que não se enxerga durante o dia. Meus sapatos vêm estragados pela escapadela de uma nuvem, nessa manhã de chuva, só para conhecer vocês de longe. Me esconderei entre os livros de Hilda Hilst, e os de Clarice, e os de Cecília. Ou então estarei na guarda-volumes, no meio dos objetos que ali não têm moradia: sacolas, sombrinhas, e livros de outros livrarias.
Postado por aeronauta às
05:07 12 comentários
Domingo, 12 de Outubro de 2008

Menino, qual nuvem encontro para me esconder? Olhe, Bernardo, entregue o livro ao vendedor Edilson, tá? E, por favor, lhe peço: não faça perguntinhas a ele.Obrigada. Estou louca pra ler seu livro.(Não se esqueça da dedicatória.)
13 de Outubro de 2008 19:07"


E lá fui eu, com o coração aos saltos, levar a encomenda à nossa heroina misteriosa. LDM localizada, direto ao guarda-volumes tentando localizá-la, e ali vi o primeiro sinal de sua presença: gotinhas de chuva no balcão. Corri os olhos pra dentro da livraria.

-Sr.Edilson, por favor?

-É aquele conversando com aquela moça.

Era ela de novo, procurando um livro de poesia, escutei-a dizer Clarice...Hilda... e se afastou. Me apresentei:

-vim trazer uma encomenda que ficou de lhe ser entregue. E Edilson:

-então você é Bernardo, e a encomenda, um livro, é para dona...

Quase lhe tapei a boca! Não estrague tudo!

...-é a Aeronauta, disse, cúmplice!


Suspirei aliviado. Disse-lhe que queria escrever a dedicatória e ele, já com um sorriso suspeito, gentilmente me levou lá atrás, na sala de leituras. Escolhi a mesa, sentei e nem sei o que escrevi. Quando me levantei, na mesa em frente, ela de novo. Levantou os olhos do livro ( Cecília?) , me olhou suavemente e os cabelos muito longos foram ajeitados com um gesto. Quase percebi o mesmo sorriso do outro. Cumprimentei a Aeronauta e saí, quase correndo. Quando saí, Edilson estava de pé, na porta, encomenda nas mãos, aquele sorriso no rosto, e a cabeça balançava levemente. Ainda tive tempo de olhar para o alto e ver uma ponta de nuvem que sumia por trás do prédio...
foto de bernardo, da LDM-piedade

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Pausa

Peço um tempo técnico! Muita coisa em poucos dias da minha vida, num período em que meu coração está envelhecendo. Nos anos setenta, consultaria o I Ching e lá estaria que "a persistência no caminho certo trás felicidade". Hoje já não tenho tanta certeza assim. Desanimo com as pequenas derrotas, mas uma das vantagens de envelhecer é justamente a tolerância que aumenta na proporção direta. Não, amigos, nada de preocupar, são pequenas queixas.
Amanhã volto pra casa e tudo volta ao eixo. Amanhã Maria já estará melhor ( vai parecer molezinha mas é de dengo pra Juliana lhe paparicar, como se fosse necessário), dou uma trabalhada de dois dias, pego uns exemplares de Morte Abjeta para entregar aos amigos que desejaram, volto para o casamento de meu afilhado em Arembepe e parto para a aventura de entregar o meu livro à Aeronauta sem lhe desvendar a identidade secreta. Alíás, este assunto foi um rebuliço nas hostes blogueanas. Um saucero. Um frenesi.
Depois eu conto tudo.
Longa vida à Maria Sampaio! nós merecemos.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Morte Abjeta




Maria Judith Ribeiro é minha amiga desde os anos 70. Em 72 namoramos e acho que não nos suportamos mais que seis meses e decidimos ficar amigos, que era mais negócio, se bem que ela nunca engoliu a história de Tuca, a namorada que veio em seguida; ficou por aí algo meio que mal resolvido. Até hoje a menção da palavra Tuca lhe causa reações inesperadas, como se mijar em publico ou me esbofetear se minha cara-de-pau (SIC) estiver a seu alcance. Nunca perdemos contato, apesar de serem sempre entremeados de acusações mútuas, recheadas de carinho. Maria* sempre gostou muito de escrever, escrevia cartas de verdade, mandadas pelo Correio e tudo. Depois passou, não sem certa dificuldade devida à baixíssima coordenação motora**, para o teclado e e-mails. Um belo dia recebi um desafio de responder, como se verdade fosse, a um texto que me enviaria no dia seguinte. E recebi. Ela me avisava que, ao retornar de suas férias, teria sido testemunha de um assassinato no seu lugar de trabalho. Respondi com minhas preocupações e a partir daí e por quase dois anos, passamos a nos corresponder até concluir o "caso". Quando recebia seu e-mail, Vera lia e gargalhava com as maluquices em nossa troca de textos e insistia em que devíamos publicar para que outros também pudessem rir. Foi assim que nasceu Morte Abjeta, o livro. E já que seria publicado, chamamos os melhores para trabalharem nele. Capa, projeto gráfico e editoração eletrônica ficaram a cargo de Maria Sampaio, fotos de Célia Aguiar, revisão de Maria das Dores Jonas e Sonia Simon, com apresentação de Alberto Saraiva e orelhas de Pablo Sales e Desirée Dalia. Mil exemplares foram impressos e vendidos na Civilização. Nem sei se ainda tem por lá. Dia desses, por curiosidade, fiz uma busca na internet e apareceu o título à venda em alguma dessas livrarias virtuais. Em todo caso, tenho alguns exemplares em casa que de vez em quando ofereço de presente de grego a algum amigo desavisado. Se tiver alguem aí com interesse, me diga que despacho um. E se não gostar, nem me diga: há uma tradição de desejarmos uma morte semelhante.
* Há três Marias na minha vida: Sampaio, Judith e dos Cocos.
**mal comum a duas delas.

sábado, 11 de outubro de 2008

Ídolos II


Sou tiete de José Carlos Capinan e quando alguém se transforma em ídolo, é temerário o encontro entre o deus e o adorador. Foi assim quando encontrei Maria Bethânia: travei, abestalhei, babei e jurei nunca mais encontrá-la. Com Caetano foi diferente, ele se aproximou, pediu um cigarro e me perguntou sobre a baía de Camamu, como se ele fosse uma pessoa normal e não um deus; não tive tempo de tremer porque ele nem parecia um deus. Fiquei mais fã ainda. Pois um belo dia eu estava de boreste em Nilo e a diretora do ginásio me convidou para participar de um evento cultural no dia seguinte. Eu participaria de uma mesa, ao lado de Capinan e falaria de "Cultura Regional e Oralidade", além de apresentar meu livro Morte Abjeta. Como assim falar de cultura com Capinan ao meu lado? Só se ele falasse de Esquistossomose, mas depois me dei conta de que ele também é médico, e foi meu contemporâneo, a quem via de longe, com medo dele me lançar um raio. Quanto ao meu livro, foi fruto de uma brincadeira que terminou editado e se não fossem a capa e diagramação de Maria Sampaio, jamais poderia se chamar de livro, não tem importância literária. Nada do que escrevo pode ser mostrado na frente de Capinan, sob pena de morte imediata por vexame agudo. Não dormi, mas não fugi. Chegou o dia e o cara veio junto. Nos apresentaram e ele me ouviu atentamente e de uma forma tão calorosa, íntima, amigável que achei que deus era de carne; elogiou minha fala que foi simples mas até eu achei boazinha, também. Ele não falou: cantou e encantou. Me deu um livro seu, Vinte Canções de Amor e um Poema (Quase) Desesperado, autografado com muito carinho. Não tive coragem de fazer o mesmo, podia quebrar o encanto. Uma platéia enorme e na mesa, eu e José Carlos Capinan. Ao final, uma festa. Um estudante comprou um livro meu e pediu que o autografasse; tive meus quinze minutos de fama.
foto de capinan:PROJETOvip

xeudizer:

anotações livres, leves, soltas