domingo, 30 de novembro de 2008

Mena, 70


Mena
Vou repetir o post para homenagear minha irmã. Mas o post de Maria está melhor, recomendo
Bateu a vontade de escrever sobre minha mãe postiça. Mena recebeu o nome de vó Carmena, nascida Carmela na Italia e teve seu nome aportuguesado quando se registrou no Brasil. Mena sempre demonstrou orgulho do nome pouco comum. Quando nasci, ela já estava com 15 anos e ajudou minha mãe a criar os três ultimos filhos. Virou meio-mãe de todos. Casou e nunca teve filhos: dobrou o papel de irmãe. Sempre foi a maior referência afetiva na família. Com a morte de nossos pais, foi alçada naturalmente ao papel que já era seu. Vieram os sobrinhos e todos os irmãos lhe entregam o primeiro filho em batismo. Dinda Mena. Separou, casou de novo. O primeiro marido, um Vadinho com apelido Toinho, lhe levou a juventude. O segundo, Dr. Teodoro Madureira com outro nome pomposo, médico, fera em otorrino, catedrático da Faculdade de Odontologia da Ufba, lhe deu o que merecia mas enloqueceu no final e tentou sufocar sua vida. Mandou andar, saiu com a roupa do corpo para ser feliz. E tem sido. Sozinha de marido, mas feliz. Tem tanta alegria de viver que nos ensinou a aprontar. Saía na noite, brincava carnaval como ninguem, fitinha na testa e brandindo sua indefectível mamãe-sacode para espantar urucubaca, sempre mijando nas pernas e lavando com cerveja; foi no brega com a gente, deu birro de carreira em barraca de festa de largo, tomou todas, correu da polícia por pregar cartaz na rua no tempo da ditadura, dava festas homéricas, tem mais de 100 afilhados (cadastrados!), e quando alguem dizia -Vamos? ela nunca contava até três. Mena topa tudo, em nome da farra. Nos veraneios do Morro de S. Paulo, encabeçava os roubos noturnos e as visagens pra matar Ieda de medo.É uma figuraça. Maria a chama de Dôidia (doida com pronúncia baiana).
Agora em 29 denovembro faz setenta anos.
É uma paixão em minha vida.
E isso tudo com apenas 1,50 m de altura.

.

foto de bernardo

sábado, 29 de novembro de 2008

Cadê minha japonesa?




Há uns posts atrás me denunciei como uma figura anacrônica, fora deste tempo, quando reconheci que não conheço mais as novas marcas de carro, além das "quatro grandes". Hoje quase tomo vaia dos filhos quando perguntei por minha sandália japonesa. Eles ficaram atônitos por uns segundos até explodirem em gargalhadas. Daí passaram a apontar a quantidade de palavras digamos, fora de uso, que ainda teimo em usar. Acho que devo muito disso à minha convivência com minha prima Maria. Como meu ídolo incontestável, sempe procurei imitá-la e sempre achei o máximo a sua preocupação em guardar o nosso baianês- inclusive, ela é uma das colaboradoras do delicioso e hilário Dicionário de Baianês, de Nivaldo Lariú. Reparem na linguagem dela. Hoje mesmo nos trouxe duas pérolas: cozinhado e matéria-plástica! Adorei! ela chama vento frio de cruviana, FM de Fêmê e lap top de portátil. Ela é o máximo e está coberta de razão. Acho que o baianês está intimamente ligado à conservação das expressões não só antigas, mas próprias de nosso povo. Banda de música ainda é conjunto; esmalte é fátima, sutiã e calcinha já foram aqui denomimados califon e calçola; orinar e obrar não precisam tradução. Maria tá com tudo e não tá prosa. Enquanto isso, vou me arriscando a ouvir ozadias por pedir minha japonesa. Mando tomar no furico. Ou no toba. Ou no fiofó.

Quer saber? Boa noite, Osvaldo!

.

foto inbopil.com.br

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Para Marcus




Sempre renovei minha Habilitação em Salvador e agora resolvi fazer por aqui mesmo; com o universo on line já é possível, sem precisar transferir o prontuário, como antigamente. Tirei um dia e parti para Valença, a capital do Baixo Sul, munido de paciência. Fui recitando o mantra da compaixão a viagem todinha, para o caso de acontecer comigo o que aconteceu com Paulo, meu irmão. Na véspera, ele me contou que tenta sua renovação há quatro meses, porque toda vez que lá chega, a funcionária descobre algo faltando. Ela vasculha os documentos como um policial farejando cocaina num baculejo. Cheguei cedo, 8:30, e peguei a primeira fila: era pra pegar uma senha. Vinte mantras, ficha 16, escrita a mão. Outra fila para pegar o Laudo, num buraco na parede, onde só se via os olhos e os dedinhos gordinhos de outra funcionária. Ela atendia cada pessoa durante 60 mantras. A 120 de chegar minha vez, uma voz do buraco anuncia:

-"Caiu o sistema". Eram 9:40. Uma de farda chega e declama, com as perninhas assim, e os bracinhos balançando:
-" Meio dia a gente fecha e volta uma e meia". Um rapaz magrinho, apavorou:
-"E nós que moramos em outro município, eu moro na roça e não trouxe dinheiro pra comer". Os ombros subiram como resposta. Convidei o rapaz.

Chega meu irmão, com todos os documentos relacionados pela própria farejadora, da ultima vez em que se digladiaram.

-"Este comprovante de residência não vale, tem de ser do mês atual". Consegui tirar Paulinho de lá antes do ataque apoplético. E na parede bem acima da mesa da funcionária, estava em letras garrafais: Art. N do Código Não Sei das Quantas: Desacato a funcionário no exercício da função ( rs...), 6 meses de cadeia e multa. Uma passada no escritório da Coelba ( muitíssimo bem atendidos ) saímos com a conta atual. Ela ainda fuçou por uns 15 mantras. Uma e meia da tarde, outra fila, o sistema on, pega-se o laudo, tira-se uma foto na frente de todo mundo ( aí a gente fica com cara de cachorro que caiu de mudança), atravessa a cidade, fila do Banco, paga-se, outro rumo, fila na Clínica, que letra é essa? com o outro olho, já se operou? não? pague no balcão. Volta ao Detran, outra fila, entrega-se a papelada crescida ( são 4:30 da tarde) e a fuçadeira, sem olhar pra você:
-" Daqui a 15 a 20 dias, telefone pra saber se já está pronta. Só falta agora levar os comprovantes numa Auto Escola pra fazer o curso ou uma provinha".

Saí de lá com a certeza que a fuçadeira não tem mãe. E foram 735 mantras no total. Mas terei minha carteira na mão por mais cinco anos ( quantos mantras serão?...)

Anime-se Marcus!
PS escrito em 27/11 para não haver dúvidas: a despeito do aviso na parede, pintei-lhe o diabo com a fuçadeira!
.
foto do detran.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O Morro não tem vez...


Volto do Morro sempre com o mesmo sentimento: absolutamente dividido entre o mal estar de ver o que acontece por lá e a imensa e eterna paixão pelo lugar. Vontade de tirar ( quase) todo mundo de lá pra ver se ainda salva. Impossível. Vai é piorar. A lógica do comércio se estabeleceu de forma inexorável e ninguém pensa diferente. Assisti a uma conversa entre dois " moradores", onde se discutia não a melhoria do meio ambiente ou da vida das pessoas mas sobre o que seria melhor para atrair mais e mais turistas, e os mais e mais endinheirados. O turista comum já não os interessa, gastam pouco, sujam muito. Precisam focar naqueles que chegam de avião, cheios de euros, se entocam nos hotéis com piscinas (?!), contratam umas putas, fuc, fuc, cheiram até poeira dos aparelhos de ar condicionado e vão embora pra voltar paroano. Nem aprendem a dizer bom dia na lingua local, muito menos obrigado.

Por outro lado, tem o lugar, as praias, o intenso e cada vez menor verde, que são verdadeiramente apaixonantes. Apesar da ocupação, - vê-se casas dependuradas em qualquer corte de terra, daqui a pouco vão ocupar as palhas dos coqueiros- ainda é um lugar belíssimo. Eu ainda daria meu braço direito, se houvesse alguem disposto a pagar o que eu acho que vale, para morar no caminho da Gamboa.
Enquanto isso, vou engolindo os sapos com o descaso com o patrimônio, vou revirando o estômago com a ocupação desregrada, vou fazendo das tripas coração para continuar indo lá e passando por cima da minha indignação, afinal lá estão partes de mim: duas filhas que ali trabalham, e minha neta que ilustra este post -cujo sorriso na foto foi a pedido da Menina da Ilha- e representa a esperança.
.
foto de edu, o genro-pirata.

domingo, 23 de novembro de 2008

Tia Norma


Há 39 anos morreu, nesta data, minha madrinha, tia Norma. Já tive oportunidade de escrever aqui mesmo sobre ela, mas nunca será o suficiente. Ela tinha uma relação especial com os parentes, os sobrinhos e comigo, por ser seu afilhado. Gostava muito de presentear. Tive um perfume Lancaster (verdadeiro, claro!) que ela me trouxe da Argentina; uma máquina fotográfica portátil, super-prática, toda de plástico,vinda não me lembro de onde; de sua ultima viagem com Jorge e Zélia, já doente, me deu um relógio russo BOKTOK, que fez o maior sucesso, imaginem, em pleno 1969! Era uma transgressão e tanta possuir e exibir objeto tão comunista. Depois que passou a ficar no leito, em junho/julho, resolvi fazer minha primeira viagem para fora da Bahia: cinco dias em Aracaju. Estudante, sem grana, apelei para a madrinha. Mandou comprar um livro de ouro e todo mundo que ia visitá-la, mandava assinar pra ajudar o afilhado na viagem. Tirei toda a grana que precisava.

Antes houve um episódio mais interessante ainda. Comecei a fumar aos 13 anos e aos 15/16 a pressão aumentou muito na família para largar. Numa visita domingueira à madrinha, me comunicou que estava fazendo uma rifa de um gravador portátil, de rolo, de Maria, ela não queria mais; se eu fosse o sorteado, deixaria de fumar? O desejo de ter aquele gravador, uma pérola da tecnologia, falou mais forte: topei na hora. Vendeu bilhete a torto e a direito, a todo mundo que conhecia. E quem foi o ganhador? Deixei de fumar na hora que recebi o tesouro das mãos dela. Anos depois, soube por Mena que, claro, ela havia manipulado descaradamente o resultado do sorteio para ajudar o afilhado na empreitada, que ela sabia ser tão difícil: fumava até quase queimar as unhas.

Eu não poderia ter tido madrinha melhor.
.
foto do blog de maria

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Casa Rôla


Indo pro Morro de S.Paulo e quando digo qué pra ver Iara, as filhas bradam! -"Ele agora só quer saber da neta". Elas fingem que é verdade e eu finjo que é mentira, em nome da harmonia familiar, mas é claro que quero estar com todos.

Temos casa no Morro desde 1967, quando ainda era um povoado de pescadores com veranistas de final de ano. Meu pai herdou uma ruína de vô Chimbo, que recebeu de seu pai, nosso bisavô Wenceslau Guimarães, o tirano. Este contruiu a casa e pôs o nome de sua esposa, para sempre conhecida no Morro como Casa Rôla. Claro que o nome dava panos pra manga e demorava muito explicar tudo isso. O apelido pitoresco rolou (ops) na imaginação de qualquer um. Meu pai fez uma autêntica casa de veraneio, sem trancas nas portas, janelas sempre abertas, dia e noite, e durante anos nunca houve o menor problema. Todos os vizinhos se conheciam, apesar da segregação. Os veranistas da vila e os da Prainha até depois da Casa Rôla eram " os pobres"; dalí em diante, começava a "Vieira Souto", com os bem-nascidos da Bahia que faziam questão de não se misturar com nosotros. Eram os de sobrenomes estrangeiros, socialites, grandes empresários, geralmente ligados -quase todos- ao esquema político dominante, leia-se ACM & Cia. Alguns descolados de ambos os grupos procuravam se misturar; eu mesmo me casei com uma que passou a fronteira, sendo eu o coiote. E assim transcorriam nossos veraneios. Um dia, dois deles lá se desentenderam e um matou o outro. A viuva se mandou, transformou a casa em pousada e o resto, quem quiser, vá lá ver no que se transformou. Os gringos tomaram conta (uma e duas), os nativos foram sendo substituidos lentamente. Eu não conheço mais ninguém, mas só vou lá pra ver Iara. E Maira, Luana, Eduardo...
.
eu e iara na pousada morena; atrás, semi-encoberta por mim, a casa rôla. foto de maira

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Amnésia Alzheimer da Silva


Fofoca é apelido desde pequenininha, hoje já nem sei mais porque. A cara da mãe, filha do irmão que nos tiraram, nos deixando mais quatro filhos. Minha afilhada, Maria chama de Rosinha mas é Daniela. Fofoca. Nem sei mais porque. Faz aniversário junto com tio Mirabeau, 18 de novembro e eu não costumo esquecer estas datas, e outras também; aliás, termino decorando telefone, placa de carro, CPF, o diabo que me contam. Coisas do TOC. Tenho raiva desta "capacidade" de sair decorando coisas, justamente quando o velho alemão insiste em baixar. Por que guardo porcaria e me estribucho para decorar um poema? Estou perdendo a memória recente mas mantenho a pregressa. Sou capaz de me lembrar com uma nitidez cinematográfica as coisas que me aconteceram no século passado e morro de boca dura tentando lembrar do lanchinho da tarde de ontem! Isto é uma merda.

Pra que esta história toda? só pra desabafar e confessar que finalmente o Dr. Alzheimer conseguiu me alcançar: literalmente ME ESQUECI DO ANIVERSÁRIO DE DANIELA!!! Primeira vez na vida. Aqui posto, na tentativa de conseguir o perdão dela ( sequer me ligou pra dar bronca). A aqui posto para a posteridade, para reconhecer que começo a dar tilt, a falhar, a comer mosca e engasgar com cuspe, a envelhecer. A porra da velhice se instalou de vez. Azar o meu, vira-se uma página.
.
foto de bernardo

xeudizer:

anotações livres, leves, soltas