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sábado, 9 de maio de 2009

Perfume


Tenho uma excelente memória olfativa. As outras, o alemão anda tentando apagar. Veremos. Li o ultimo Monólogo de Edu escrito nas Madrugadas, que me fez lembrar " do tempo em que éramos lindos"*. Lembrei da escola primária em Nilo, ao recordar o cheiro da merenda: pão com manteiga e açucar na merendeira de plástico. Já cheirei pão com manteiga e açucar sem o plástico e não é a mesma coisa.
Das lembranças de quando "era bem lindo mesmo", a da primeira paixão me veio com o texto de Edu. Devia estar com sete, oito anos porque com dez deixei Nilo pra estudar na Bahia e já estava no segundo e definitivo amor, de tantos outros que vieram. Minha namorada, em quem jamais encostei um dedo sequer, usava um perfume que a identificava a quilometros. Hoje percebo que minha função como namorado, era catar seu cheiro onde passava, tocava, pisava. Domingo, da porta da Igreja já sabia se estava lá. E o ódio cheio de ciúmes quando sentia aquele cheiro em algum amigo? Três dias sem dormir. Até hoje, manopla de bicicleta tem aquele cheiro, daquele perfume que ela deixou na minha.

Passei anos com a lembrança daquele perfume. Cafunguei cangotes à toa; pra que, não sei, acho que só pela lembrança. Se tornou uma obsessão reencontrar o perfume.

Dia desses, numa prosaica compra de pregos para pendurar uns quadros, uma senhora, certamente da roça, com seu lencinho na cabeça e sandálias havaianas, encostou em mim. A labirintite voltou. Era ele, o perfume, sem a menor dúvida eu o reconheceria em qualquer vida. Fiquei ali, nem olhei pros lados, muito menos perguntei alguma coisa. Só fiquei ali, por quase cinquenta anos, olhando pra outro lugar...
* expressão cunhada por Maria Sampaio e Luciano Freitas para se evitar o horrível " antigamente..."
foto: perfumedegardenia.com.br

xeudizer:

anotações livres, leves, soltas