
Meu compadre Raul, o louco, é minha alma gêmea. Ele diz que ainda vamos ter um caso antes de nossas mortes e eu espero que seja primeira a dele, e ele, a minha. Eu ainda acho que devíamos atravessar o limbo juntos mas aí já seria caso consumado. Ainda por cima as pessoas nos acham parecidos. Até acho alguma semelhança, se fixarmos o olhar sobre a careca insipiente, a minha, e a já instalada, a dele. O buchão é muito parecido: mais flácido, o meu, porque feito de gordura; maior e lustroso, o dele, por estar sempre cheio de merda; "vísceras", se defende.
Depois da formatura, cada um tomou um rumo. Eu fui pra Maracás e depois me estabeleci no Baixo Sul; ele foi pra Barra de São Francisco, nos cafundós do Judas. Mofou uns tempos até ser perseguido por um marido ciumento e veio dar os costados em Cruz das Almas. Chamei pra junto e agora está morando em Ituberá. Já está em Camamu, também. Caso é caso.
Quando chegou em Ituberá, há cerca de sete anos, espalharam que era meu irmão. Ele nunca desmentia, ficava feliz. Muitos nos confundiam mesmo. Um dia de manhãzinha minha filha indo comprar pão, chegou esbaforida:
-" Pai, vá ver tio Raul! tá lá no Dique andando de cueca, com um cachorro amarrado numa cordinha, parecendo um doido!" Nem me dei ao trabalho, já conheço de outros carnavais, saindo de diabo no bloco "As Almas de Quintas" . Aquilo era café pequeno. O pior estava por vir: o buxixo do dia na cidade era: Dr Bernardo, quase nu, andando de madrugada pelas ruas, com um cachorro marrado na mão. Parecia um doido.
Ele ri e nega até a morte que era ele, o safado.
imagem: uol.horoscopo