
2005, eu era Sub-Secretário de Saude de Dias d'Ávila. Final de tarde a Prefeita me liga, que Popó, o lutador, ia promover uma noite de boxe no Ginásio. Luta demonstração, nada muito sério. Nem desconfiei. Só queriam um médico para dar assistencia; os promotores avisaram: sem médico, sem show. Procurei nos Postos e no Hospital e todos deram desculpa. Ainda sem desconfiar de nada, eu fui;. Levei um técnico em enfermagem e um veterinário, e até hoje me pergunto por que.
Na porta do ginasio me recebe um homem enorme, com a gravata maior ainda e o nariz que era uma noz e pergunta: -" o senhor tem experiencia em UTI? traumatismo barra-pesada?". Gelei, mas não perdi o prumo. -"Claro", respondi nem sei por que. E ele: -"Serão quatro lutas e alem do juiz, só o senhor pode parar a luta, olha a responsa". Perguntei qual seria o critério de parar, e ele, com a voz de trovão, que nem precisava, quase berrou: -"NÃO PARE POR BESTEIRA!". Porreta essa. O que seria besteira numa luta de boxe? Os pés fugiram.
Casa cheia, a tribuna com a Prefeita, Deputado e até um Senador, cheiro de sangue no ar, facas nos dentes. Tres cadeiras para a equipe médica junto ao ringue. Uma gostosa sobe com um cartaz de 1º ROUND. Bléiiin! "Meu Deus, bate devagar desgraçado, é uma demonstração". Eles não ouviam meu pensamento. Um dos lutadores toma um pau, o juiz para a luta, me chama e alguem me empurra -" vai lá!". Passei debaixo das cordas ( nem pensei em saltar por cima) e já recebi a primeira de muitas vaias da noite. Ensurdecedora. O lutador, beiço partido no meio, me sussurra com ódio: -"se me desclassificar te pego lá fora". Meu assistente, o veterinário, estava verde. Dei uma olhada e percebi que ele estava com as luvas trocadas, com um dedo sobrando; aquilo era sinal de pânico. O tecnico de enfermagem havia sumido desde o primeiro gongo. As vaias não diminuiam. Cada round, cada luta era um sofrimento. Todos os lutadores me ameaçavam com os olhos. Foram DOZE lutas de cinco assaltos, quatro nocautes, duas toalhas e NENHUMA DESCLASSIFICAÇÃO MÉDICA. Acho qu nunca sofri tanto na vida. Se algum daqueles filasdasputas tivessem tido algo sério, poderia acabar com minha carreira. No final o homenzarrão do nariz de noz me deu um tapinha nas costas e Popó me perguntou se eu não queria seguir carreira no boxe...
Pedi demissão pra não matar a Prefeita. Desde então me recuso a ver luta até na TV.


