segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Nocaute! *

* Uma deixa de Miro Paternostro


2005, eu era Sub-Secretário de Saude de Dias d'Ávila. Final de tarde a Prefeita me liga, que Popó, o lutador, ia promover uma noite de boxe no Ginásio. Luta demonstração, nada muito sério. Nem desconfiei. Só queriam um médico para dar assistencia; os promotores avisaram: sem médico, sem show. Procurei nos Postos e no Hospital e todos deram desculpa. Ainda sem desconfiar de nada, eu fui;. Levei um técnico em enfermagem e um veterinário, e até hoje me pergunto por que.
Na porta do ginasio me recebe um homem enorme, com a gravata maior ainda e o nariz que era uma noz e pergunta: -" o senhor tem experiencia em UTI? traumatismo barra-pesada?". Gelei, mas não perdi o prumo. -"Claro", respondi nem sei por que. E ele: -"Serão quatro lutas e alem do juiz, só o senhor pode parar a luta, olha a responsa". Perguntei qual seria o critério de parar, e ele, com a voz de trovão, que nem precisava, quase berrou: -"NÃO PARE POR BESTEIRA!". Porreta essa. O que seria besteira numa luta de boxe? Os pés fugiram.
Casa cheia, a tribuna com a Prefeita, Deputado e até um Senador, cheiro de sangue no ar, facas nos dentes. Tres cadeiras para a equipe médica junto ao ringue. Uma gostosa sobe com um cartaz de 1º ROUND. Bléiiin! "Meu Deus, bate devagar desgraçado, é uma demonstração". Eles não ouviam meu pensamento. Um dos lutadores toma um pau, o juiz para a luta, me chama e alguem me empurra -" vai lá!". Passei debaixo das cordas ( nem pensei em saltar por cima) e já recebi a primeira de muitas vaias da noite. Ensurdecedora. O lutador, beiço partido no meio, me sussurra com ódio: -"se me desclassificar te pego lá fora". Meu assistente, o veterinário, estava verde. Dei uma olhada e percebi que ele estava com as luvas trocadas, com um dedo sobrando; aquilo era sinal de pânico. O tecnico de enfermagem havia sumido desde o primeiro gongo. As vaias não diminuiam. Cada round, cada luta era um sofrimento. Todos os lutadores me ameaçavam com os olhos. Foram DOZE lutas de cinco assaltos, quatro nocautes, duas toalhas e NENHUMA DESCLASSIFICAÇÃO MÉDICA. Acho qu nunca sofri tanto na vida. Se algum daqueles filasdasputas tivessem tido algo sério, poderia acabar com minha carreira. No final o homenzarrão do nariz de noz me deu um tapinha nas costas e Popó me perguntou se eu não queria seguir carreira no boxe...
Pedi demissão pra não matar a Prefeita. Desde então me recuso a ver luta até na TV.

Boitaraca News


Boitaraca é um povoado de pouco mais de 50 familias remanescentes de um antigo quilombo, que junto ao de Jatimane, abrigava os fugidos da Fazenda Mutumpiranga, que anos depois veio a ser nossa. É um lugar bucólico, com casinhas, uma igreja e um cemitério. Só. Nem Posto Médico tem, daí se vê a importancia que os podres poderes têm dado a estas comunidades historicamente isoladas e, portanto, discriminadas. 80% das pessoas se chamam Rosário de sobrenome, como Rosário dos Pretos, a igreja do Pelourinho. O motor econômico é o beneficiamento da piaçava, trabalho desgraçado que acaba com a saude das pessoas, emprestando mais 40 a quem tem 30anos. O lugar de maior movimento é o bar de Carapicum. Rosário, evidente.


Todas as casas têm antenas, comuns ou paranóicas, como se diz por aqui, que pegam até o Amazonas. Programa preferido: assistir e comentar depois, as novelas. Tentei saber algo da história do povoamento e entrevistei: Maicon, Maxwel, Estephane, Railan Diego, Maikele e Marlon. Todos Rosário, evidente. Ninguem sabia nada. Zumbi se revirou três vezes no túmulo.

Em tempo: os nomes são verdadeiros, copiados dos prontuários médicos.

sábado, 6 de setembro de 2008

O Jumento e o Elefante


Nem gosto de americanos a ponto de falar daquela eleição complicada, que cada vez mais, entendo menos. O Partido Democrata de lá, parece o nosso PSDB, só que o simbolo é o Jumento. O Republicano, algo como o nosso Demo, é representado pelo Elefante. E todo mundo está tomando partido na campanha alheia. Aqui no Brasil, virou febre a torcida pelo Obama. Com cara de brasileiro, a imprensa corre a defini-lo como " o primeiro negro a chegar à presidencia do mais importante país do planeta", a despeito do próprio evitar a "etnização" da disputa. Mas a imprensa ignora isto, quer ver um negro chegar lá. E depois? que diferença isso fará? Ele será apenas o Presidente do país deles lá, o ufanismo permanecerá, o protecionismo também. E o McCain? parece que o "herói" é um vilão aqui, o homem que pode impedir o negro de "nos" representar. Herói de guerra, branco e velho: prato cheio. Vamos cair de pau no McCain.

Nas leituras que fiz, apenas John Edwards tinha um discurso mais próximo do respeito à autonomia dos países e uma proposta mais interessante de aproximação com a América dos Pobres. Sartou fora, não aguentou o tranco. Tia Hillary resistiu pelos mesmos motivos do Barak: " a primeira mulher..." Ganhou o Negro. Questão de cotas, acho.

Agora, a unica diferença que vi entre os dois foi: McCain quer continuar batendo no Iraque. Obama acha que a porrada deve ser no Afeganistão. Questão de diferença ideológica partidária americana. McCain, o Elefante. Obama, o Jumento.
Foto do site yahoo notícias; sem crédito

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Jango

Obrigado a todos pelos votos de recuperação de meu filho.
Felizmente o susto passou.
As cirurgias hoje são uma maravilha. Ele operou ontem à noite, foi pra casa hoje de manhã e meio-dia já estava no restaurante comigo, a pedido.
A cabeça, no entanto, ainda está vazia.
Adeus.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

EMERGÊNCIA!!

Meu filho João acaba de sair de uma sala de cirurgia de emergência. Foi ontem pra Bahia fazer uma Ressonancia no pé, por causa de um atropelo no carnaval. Atirou no que viu, acertou o que não viu. Na estrada, voltando pra casa, atendo o telefone e tomo o soco no estômago: -" Pai, Jango vai ser operado agora: apendicite!" Alguem aí, faça alguma coisa direito depois de uma dessas. Estou a 200 km de distancia do Hospital. Sei, não faria nada se lá estivesse, mas queria segurar a mão dele. Não é mais pequeno, com 27 anos, tem uma mão maior que a minha mas é meu filho, eu colocaria, então, minha mão dentro da dele. Talvez até ele me acalmasse...
Médico é mais dramático que os mortais: a gente sempre parte do pior para o menor dos males. Fica pensando na anestesia, na cabeça do cirurgião, na cânula esterilizada (?), ou até mesmo na esmeraldite ( a Lei de Murphy aplicada aos profissionais de anel verde). Vá saber. Prefiro estar lá, esperando o acordar grogue, para ele se sentir em casa. Os outros filhos e Vera me aconselharam não pegar estrada à noite e têm razão. Acabo de falar com ele, com aquela voz de bebum. Graças a Deus tudo correu bem e amanhã cedinho vou correndo pra lá, pra lamber a cria.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Aqui, não!


Vejam como são as coisas: há poucos dias mostrei minha casa, e as fotos ainda podem ser vistas aqui no blog. Recebi um monte de comentários com elogios. E é mesmo de elogiar; fica num terreno de 2.000m², com dezenas de árvores que fazem o isolamento acústico, e tem comedor para passarinhos. O sabiá já vem comer mamão na janela da cozinha.Aparece sanhaço, tapiranga ( sangue-de-boi) com o vermelho mais bonito já impresso em um ser vivo, bem-te-vi. São todos tratados a pão-de-ló. Eles já perceberam que podem ficar seguros por aqui e ficam. Pois todo esse sossego correu sério risco há pouco tempo, e ainda corre. Um vizinho imbecil, daqueles que lembram os das revistas em quadrinhos, tem um galpão a poucos metros da minha cerca dos fundos, onde por sinal fica o meu quarto com o gabinete, local em que passo 50% de minha vida quando estou em casa, principalmente à noite. 30% passo na varanda da frente e o resto por aí. Pois o cretino, pra fazer média, ofereceu o dito galpão para o ensaio de uma banda! Pense na visão do inferno! Banda de novatos, meninos com testosterona nos ouvidos, e que tocam arrocha!!! Pra quem já confessou que não gosta de música...No primeiro dia estranhei mas ainda me contive, mas, como no poema de Maiakowski, não reclamei, os passarinhos se calaram e eles avançaram, tocando até as 22 h. Resmunguei a noite toda e de manhã fui tomar informações. Soube quem era o band leader; ele que me aguardasse. Quando voltei do trabalho às 17 h, já ouvi de longe a som de Nara Costa! fui pra casa esperar a hora que terminariam. Às 20 h, aporrinhômetro no nível vermelho, já saí de cueca (boxe, claro ) e arrombei a festa! O menino gaguejava tentando me convencer que tocariam mais baixo e eu lá de cueca, esbravejando. 1 X 0 pra mim. Saíram, devem estar povoando outro bairro com o som de Silvano Sales. No outro dia, os passarinhos cantaram diferente. O sabiá chegou a dois metros de mim, virou a cabeça pra me olhar de frente e foi procurar o que fazer, dar um rolé.


foto: aves do brasil; tapiranga, sangue-de-boi, tiê-sangue.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

E o teatro?


Já que comecei, vou até o fim: também não vou mais. Nem posso dizer que não gosto de teatro, até fiz parte do grupo da Faculdade de Medicina, quando atuamos em várias escolas com relativo sucesso. O problema é com o chamado "teatro interativo". Aí o bicho pega. Feio. A ultima peça que assisti foi A Bofetada, no dia em que comemoravam 10 anos em cartaz. Isso já faz mais de dez anos, acho. Naquele dia estava com humor de cão; quem me deu "bom dia" ouviu como resposta: "por que?". Achei até que um teatrinho desopilador poderia me ajudar. Qual o que! Quando aquele pessoal desceu do palco para escolher um pato, gelei! Sou mal humorado mas não consigo ser mal educado, esse era meu dilema: que faria se me "escolhessem"? Simulava um ataque cardíaco na hora! Ou epiléptico, por ser mais teatral. Nunca mais voltei.


Algum tempo depois, uma amiga me contou que havia assistido a uma peça em que os atores desciam pelados do palco, e "interagiam" com o público, assim, como se estivessem na privada. Ela comentou que chegou a sentir o cheiro dos pentelhos de um ator coadjuvante que se postou, com os pés sobre a poltrona, a terríveis poucos centímetros de seu nariz! E se eu não conseguisse controlar minha educação? ou ele a ereção?


Para completar a tríade, também não vou mais a shows musicais, a partir da invenção nacional do acompanhamento das músicas com palmas, ou com corinho. Só se for João Gilberto. Aí ele dá um esporro por nós dois.


Espetáculo, para mim, qualquer que seja, deve ser: pago para assistir! Caso contrário assumo:




VÁ AO TEATRO


( mas não me chame )


xeudizer:

anotações livres, leves, soltas